Clarice (a Lispector... mas é claro que não precisava dizer) disse certa vez que havia nascido para três coisas.
A primeira era ser mãe, e aí vem nossa primeira divergência, nasci para ser como Brás Cubas e me sentir bem aventurada por não ter colocado mais ninguém para viver esta miséria que chamamos de vida e aprendemos a amar e lutamos para manter.
A segunda era escrever, e nisto concordamos em gênero, número e grau. Descobri que havia nascido para escrever desde muito cedo, sempre amei ver no papel, aquilo que eu não conseguia dizer com palavras, cada uma das minhas muitas emoções sendo marcadas por vírgulas, manipuladas por pontos, continuadas por simples reticências. Queria saber escrever como Clarice, deixar o mundo intrigado, exatamente como ela me deixa intrigada quando leio “Paixão segundo G.H”. Mas me falta talento Clarice, me falta talvez o ânimo, o estado de espírito, ter nascido com o dom de fazer a coisa. Eu nasci com vontade de escrever...
A terceira era amar, e nisto Clarice como te invejo, porque dos amores que a vida me trouxe pouco pude aproveitar até agora, foram tão raros e tão rasos, que me pego pensando se eles existiram de fato.
Queria poder ser mulher como Clarice foi, poder falar dos meus sentimentos sem reprimi-los, sem pensar no que vão pensar de mim, sem querer saber o sabor que as minhas palavras produziriam nos sentidos do amado da minha alma. Poder falar tudo, sem medo de errar de novo, de fracassar de novo, de ser só mais um vento que passou... De novo.
Queria ser eterna, como Clarice é, queria que minhas palavras entrassem nos corações como as dela entram no meu. Certa vez ouvi que minhas palavras eram para corações partidos, mas como poderiam não ser? Não é isto que tem batido em meu peito? Um caco de coração?
Por isso digo que também eu nasci para três coisas:
A primeira é ser Corintiana, mas sei que o Corinthians vive bem sem mim, e que se eu morrer ele ainda continua.
A segunda é ser escritora, mas assim como Clarice, sei que um dia já terei produzido tudo o que era possível produzir, as pessoas vão se cansar, eu vou me cansar.
A terceira é ser trouxa, e isto vou levar pro túmulo, por que enquanto eu viver acreditarei em quiser me enganar, farei o máximo de escolhas erradas que puder fazer e não por que eu queria, mas porque isto é inerente a mim.
Queria ser Clarice, vou morrer dizendo... Queria ser Clarice...
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