
Eu sempre tive lá minhas considerações sobre o que era normal. Sempre soube que eu passava muito longe disto.
Vamos fazer um teste, um teste simples: Você acorda e ao sair de casa, percebe que o céu está carregado de nuvens cinzentas e que a temperatura está caindo a cada instante. O que você pensa?
a) Vai chover, vou pegar o guarda-chuva.
b) Vem uma tempestade, vem o cinza mais um vez, aquelas gotas pesadas escorrendo nas ruas, como minha tristeza escorre pelas minhas veias, manhã cinza esta, sim, manhã cinza: mas nunca tão cinza quanto eu.
Se você escolheu a opção A: Parabéns, você faz parte dos 90% da população que são pessoas normais, que não precisam de psiquiatras, nem de antidepressivos, nem de amigos te dizendo o tempo todo que tudo está bem. Mas se você escolheu a B, meu bem, meus sentimentos mais profundos, você é igual a mim e precisa de toda ajuda anti-frescura possível.
Precisa ler, sentar e ler, precisa esgotar toda a sua necessidade dramática de encarar a vida do jeito mais difícil, para que, talvez, um dia, você consiga se vencer. Precisa ser convincente com quem está do seu lado e vestir seu melhor sorriso e beber com a sua cara mais sóbria, pra que todo mundo pense que você está bem e quando falar, preocupe-se em parecer feliz, escreva, leia e finja que se você está triste o tempo todo todo é culpa da porcaria da "alma de artista" que só vai te abandonar quando você morrer e quando o bicho pegar mesmo, daqueles dias em que você não quer sair de casa, coloque a culpa em um bloqueio artístico qualquer.
Não discuta quando te falarem que isto que você sente é falta de uma Igreja, de um Terreiro, de um Templo Budista, de alinhamento nos seus chacras. Diga que você reza muito, seja pra Jesus, pra Ogum, pra Krishna, para os espíritos de luz ou o raio que o parta, porque nada, repito, nada, irrita mais uma pobre alma de artista do que infindáveis discursos religiosos, dizendo que sua alma está no inferno porque o capeta, ou o encosto da esquerda estão travando sua vida, até porque é mentira: sua alma está vivendo no Inferno porque não sabe pra onde ir.
As pessoas normais sabem pra onde ir, olham pra uma jaqueta azul e pensam: que bonito, uma jaqueta azul. Nós... nós pensamos: Jaqueta azul, como ele(a) usava e que tinha um cheiro tão nosso, e que era tudo, era parte de mim , era o que me fazia todo. Consegue entender? Existe uma falta de praticidade na nossa maneira de pensar e de agir, que chega a dar raiva e que nos faz andar em círculos, e pensar que estamos como rochas, seguindo em frente.
Cá pra nós, meus amigos, sempre invejei as pessoas normais, o mundo inteiro é delas e por isso parece um lugar tão escuro e sombrio pra mim, tão escuro e tao sombrio que faz com que eu me perca e mude de direção a cada dois passos.
Me perdoem a frescurite impregnada neste texto, é que é a frescurite impregnada em mim, e que, compartilhando com você, torno nossa, e assim, com mais gente do meu lado do mundo, me sinto mais forte e, talvez, menos perdida também.

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