
Escrevo enquanto Caetano canta, tento pensar em não simplesmente não escrever. Na verdade minha cabeça pensa: "não é assim Gabi, não se chega bêbada em casa em plena terça-feira e coloca-se uma daquelas músicas em que o Caetano, Gil e Buarque fazem seu coração sangrar para então escrever uma coisa que vai fazer com que você se arrependa", mas meus dedos embriagados respondem: "foda-se, já abri o blog, agora já era".
E enquanto Caetano canta " Não me arrependo" penso em todos os meus arrependimentos e então fico aqui, tentando fazer uma fórmula de subjetividade. Como falar o que eu quero, sem dizer o que eu quero? Como falar do meu amor, sem ser para o meu amor, e então vai saindo isto, esta coisa que só se entende quando se está tão bêbado quanto a pessoa que vos escreve e que todos chamam de arte exatamente porque não conseguem entender.
E tudo o que eu consigo pensar é: Quando você me deixou, perdi o tom e nunca mais consegui cantar nenhuma outra canção, nunca mais minha voz se encaixou na voz de outro alguém, nunca mais o momento perfeito em que a música que tocava era a que eu queria cantar.
Nunca mais vi um dia de Sol, nunca mais a claridade invadiu meu quarto pela manhã do mesmo jeito e nenhuma cerveja teve o mesmo gosto desde então.
Nunca mais uma linha foi escrita sem amargura, nunca mais o amor foi sentido sem arrebentar meu peito, nunca mais seu nome foi dito sem me provocar uma dor imensa, ainda que ninguém estivesse falando de você, e eu odiava os seus "xarás" por isto.
Eu esqueci teu cheiro, o gosto do seu beijo, o calor do seu corpo e assim fui esquecendo de você e esquecendo de mim também. E assim como você foi virando só uma lembrança vaga e um fantasma que me assombra, bem assim, fui fazendo também o meu caminho: um rascunho de tudo o que eu já havia sido, uma imagem que todos vêem e com quem todos riem ou choram, mas que nunca saberão quem é, porque quem eu sou está descompassado e jamais voltará a ser o mesmo.
Meu coração fica repetindo a mesma nota G. aumentado ou diminuído às vezes sustenido, como gostam de chamar, e que me enlouquece ouvir e que sempre me dá dor de cabeça, mas que é a única nota que sei fazer no violão.

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