
Ela anda na rua como um fantasma. Nada parece tirar ela do rumo, nada parece afetá-la, ninguém sabe que ela nem sente o vento que balança seus cabelos.
Quem a vê, com o livro na mão, sentada sobre a grama verde, não imagina a quantidade de revoluções que são travadas dentro dela. Não percebem a pergunta que grita em seus ouvidos em uma altura que a ensurdece, que a faz perder a razão às vezes: Por que não eu?
Essa pergunta a persegue por onde quer que ela vá, sempre, como uma sombra, um ruído inaudível, uma presença imperceptível. Apenas ela sofre, apenas ela sente, apenas ela ouve, mas quando ela olha os outros nos olhos, percebe que quase todos sentem a mesma coisa. Essa sensação de nunca ser escolhido para nada, de ser sempre o segundo plano, sempre aquilo que é deixado para trás e mais, muito mais do que isto, se acostumar a ser assim, porque foi a única opção que a vida ofereceu, era a única sensação que ela conhecia.
Ela percebe que está em preto e branco enquanto os outros caminhantes parecem coloridos e ela sabe que um dia pode ser colorida também, ainda que um diabinho, que a perturba noite e dia, a faça perceber que algumas pessoas nasceram simplesmente para serem o que são: algumas são felizes e donas de seus destinos, outros nasceram pra catar os restos das migalhas que caem da mesa.
Saber que não havia nascido para ser feliz era a parte fácil de entender, cada religião no mundo tinha uma explicação para isto, aceitar que isto tinha que ser assim para sempre, era o seu desafio, era o que provocava o Inferno que ela trazia nos olhos, sem conseguir jamais livrar-se dele.

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