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quinta-feira, 5 de abril de 2012

Retrato em preto e branco


Faz frio em São Paulo e frio por aqui é coisa diferente de qualquer outro lugar, a garoa vai minando sua vontade de ficar na rua e eu estava ali, entre a Paulista e a Consolação.
As pessoas passavam de um lado para o outro e eu ali parada no ponto esperando meu ônibus e sonhando com um banho quente, o aconchego do meu quarto, o cheiro do amaciante no edredom. Ouço música e tento prestar atenção ao que se passa ao meu redor, (atenção é coisa indispensável por aqui) quando percebo algo do outro lado da rua.
Ele está lá, sentado sobre o papelão, coberto com um farrapo esburacado e sem nada que impeça o frio de destroçá-lo. Apesar de tudo não parece abalado, não sei o que sinto e nem sei se ele sente. Penso sobre estas coisas enquanto vejo as pessoas passarem sem notá-lo, percebo que apenas eu o percebo e em minha condição de única, percebo que não faço nada.
Vejo uma mulher segurando uma criança pela mão, o menino na altura de seus quatro anos carrega uma garrafa d'água na mão, ao ver aquele homem sentado no meio da rua em meio a todo aquele frio e aquela gente, pára sua caminhada, olha sem entender, sorri um sorriso de poucos dentes e estende a garrafa d'água, sua pequena alma entende que às vezes é necessário dar de coração tudo aquilo que se tem, o homem estende o braço, pega sua garrafa e sorri, com os mesmos poucos dentes e talvez com a mesma pureza do menino, a mãe se desespera com o breve contato, como explicar o que é aquilo que não é bicho nem é gente? Como explicar para o menino o que é um mendigo? Ela não diz nada, apenas puxa o garoto com força e o avisa que não deve falar com estranhos.
O mendigo acompanha o caminho do menino com os olhos, olha para a garrafa, abre, toma um gole, fecha, olha para a garrafa e derrama uma lágrima, talvez por perceber que alguém o enxergou pela primeira vez em muito tempo.
Minha lágrima para nos olhos e é abafada pela fumaça do ônibus que explode em gente, sou obrigada a tentar me equilibrar para ser carregada como gado. Minha lágrima escorre porque percebo que minha invisibilidade é tão grande quanto a daquele homem sentado no chão, tão grande quanto a de todas as pessoas que habitam esta cidade.

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