BLOGGER TEMPLATES AND TWITTER BACKGROUNDS

sábado, 17 de março de 2012

Caminhar


Já dizia Clarice: "É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo."
Ás vezes dói tanto que escondemos a dor para que, andando no mundo dos mortos eles te considerem como um ser vivo.
Escondemos lágrimas atrás de sorrisos e contamos mentiras para que as pessoas percebam que você ainda respira... mas nada resta por dentro.
Meus amigos reclamam da tristeza do que escrevo, da diferença entre o que escrevo e o que vivo, porque sim, meus poucos e caros leitores, por mais impossível que possa parecer, sou uma pessoa feliz. Estou sempre cercada de amigos e sempre tenho boas novas pra contar, de maneira impressionante a vida sempre me cerca do bem e a cada esquina o destino coloca pessoas maravilhosas em meu caminho. O problema, é o que acontece por dentro.
Já se sentiu sozinho no meio de uma multidão? Já sentiu que algo essencial te faltava, mas quando se deu conta tinha mais do que precisava? Pois é, isto tudo faz parte do meu show e talvez também do seu, nisto que absurdamente chamamos de vida.
Não existe ser humano que não sofra ou que não tenha perdido um grande amor, não existe o transformar-se em gente sem alguma grande perda e eu sei que falar disto constantemente é sem dúvida monótono, porque é monótono viver também.
Mas é o que acontece quando você chega em casa em um sábado de madrugada e encontra a casa vazia e se percebe tão vazia quanto ela e existe uma dor tão forte batendo no peito que nem todo o whisky conseguiu afogar, você sente as mãos trêmulas e nem percebe que, talvez e só talvez exista esperança de que no final dê tudo certo, talvez esta dor no peito seja a certeza de que mesmo que dê tudo errado, você seguirá em frente... em frente com isto que você chama de vida.
Sinto vontade de escrever até minha dor passar, sinto vontade de compartilhá-la com você, ainda que você, que conhece minha alma melhor que eu, merecesse todo o amor que eu tenho guardado em algum lugar pra te dar.
Mas respiro fundo, seco as lágrimas e sigo em frente, porque no final das contas, é tudo o que resta a todos nós fazer, nos encontrarmos em nossa desorganização e caminhar sem destino ou vontade de chegar.

terça-feira, 13 de março de 2012

Ciclos


Um ano, um dia, um mês...quê é o tempo para quem o tempo não passa?
Sinto que ainda estou presa àquele instante. O instante da perda, da partida que foi a primeira e parece que vai ser a última.
Lembrança de segurar no corrimão frio de metal do metrô da linha vermelha, do ar que parecia ter deixado de existir na estação Carrão.
Lembrança de entrar no trem sem saber bem o que fazer e o que esperar e ainda assim, esperar um beijo, que vem, mas que não deveria ter vindo.
Lembrança tatuada na boca, na pele e na alma, do exato momento em que esta mesma alma se perdeu e que nunca mais pode encontrar-se, porque já não cabia mais na casa à que desejava pertencer.
Um ano e tudo mudou, um segundo depois e tudo é igual. A dor de perder é igual para todos e vivê-la talvez seja inevitável, e inevitavelmente, saber disto consola a quem, se cada dor é única e intransferível como uma digital?
Um ano onde tudo o que me restou foi a tatuagem vazia feita naquele maldito, ou bendito, vagão de trem.
Lembro de ouvir tocar em minha cabeça: "...lágrimas por ninguém, só porque é triste o fim, todo amor se acabou..." Lembro de dizer adeus, lembro dele dizer que não era um adeus, lembro que meu coração o seguiu, sinto que ele nunca mais voltou.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Não aprendi a ser mulher lendo livros


Era uma vez uma linda mulher: bonita, inteligente, doce, meiga, com valores morais de uma verdadeira princesa, ela ama os animais e conversa com as flores, as crianças pequenas sempre sorriem quando ela passa e quando ela anda parece flutuar. Ela é a mulher que todo homem sonhou, devota a seu lar e mesmo assim independente e forte, fiel e pacífica.
Era uma vez, uma mulher que não sou eu.
De certa forma, sempre abominei a perfeição, cresci com a vida e fiz questão de passar muito longe do País das Maravilhas, sempre achei um lugar perigoso que torna as mulheres no que os livros, a tv e a sociedade aprovam e eu, meus caros e poucos leitores, de certa forma, sempre abominei a aceitação.
Não leve a mal, é que no mundo real, se eu flutuar enquanto ando, sou esmagada no metrô lotado e se parar pra conversar com as flores, certamente um vagabundo qualquer vai passar a mão na minha bunda assim que eu abaixar.
O mundo real tem destas coisas, as pessoas não são perfeitas e passam muito longe de desejar ser, geralmente o príncipe encantado é substituído por cinco, ou talvez quinze homens que vão te ferir e magoar durante toda sua vida e ao invés de levar flores ao lhe visitar, vão levar embora um pedaço do coração a cada partida insperada e sem motivos.
Na vida real eles fazem o que querem e vão embora e, quando você pergunta o porque a possível resposta é que você era feia demais, gorda demais, tarada demais, (não podemos esquecer que para um homem ir para o País das Maravilhas encontrar uma mulher ele tem que ser um príncipe, e como isto é para pouquíssimos, eles vagam pelo mundo real, pra divertirem-se quebrando o coração de mulheres como eu e você).
E aí você me pergunta: Se os príncipes estão no País das Maravilhas, por que não vamos para lá?
A resposta é simples:
É porque no mundo real, as mulheres gostam de tomar cerveja no bar, rindo com os amigos, e talvez até prefiram whisky enquanto fumam cigarros. Porque não temos medo de falar palavrão e de brigar no bar, ou na rua, ou no ônibus e porque não em casa, ou em qualquer lugar onde respiremos, por causa de futebol. Porque no mundo real gostamos de transas casuais e de poder sim fazer sexo na primeira noite e nos darmos o direito de agir como homens e não atender o pobre coitado no outro dia, porque, sim, no mundo real podemos ser más sem perder a ternura jamais.
Porque no mundo real a fantasia não acaba quando acontece o casamento, trabalhamos, estudamos, saímos pra dançar, falamos mal de outras pessoas, fazemos comentários maldosos a respeito de gente feia, saímos na porrada se alguém fala mal de uma amiga, tiramos os brincos e as pulseiras, descemos do salto se mexerem com a gente, gostamos de carros e motos e não de homens com carros e motos, queremos o nosso, queremos ganhar bem e viver bem, geralmente brigamos com nossos pais, mas sempre pensamos em viver para deixá-los orgulhosos, ou mesmo calar a boca de quem falou de que não passaríamos de vagabundas.
Não aprendemos sobre amor com Jane Austen, nem a ser princesas com os contos da Disney, aprendemos com a vida que sempre vai doer mais da próxima vez e que você sempre vai ter que ser mais forte pra aguentar as pauladas que a vida vai te dar. Aprendemos sobre amor na marra, vivendo, nos entregando, nos decepcionando, sendo partidas aos pedaços e, as vezes, tendo estes pedaços expostos em praça pública.
Aprendemos na marra a nos tornarmos parte homens para não enlouquecer, aprendemos a andar com nossas próprias pernas e sem esperar muito do futuro, mas mesmo assim nos lançarmos à ele com toda nossa força.
Era uma vez uma mulher que vivia com os pés no chão e que achava o príncipe encantado um babaca, era uma vez uma mulher de verdade que mandou o portão do País das Maravilhas pro inferno, porque o mundo real, às vezes tão assustador, ainda assim, é um lugar feito para nós e por isto, de repente, maravilhoso!